Como tinha comentado no post O voo de pássaro de Pacheco Pereira, a forma de pensar as cidades e vilas começa a mudar (embora que lentamente reconheço). Temos exemplos muito bons de reabilitação de vilas e centros históricos. Foi o que pude constatar no último fim-de-semana prolongado, tendo aproveitado para refrescar as ideias, em conjunto com um grupo de amigos percorri alguns dos concelhos do distrito da Guarda, ver imagem.
Depois de passado Celorico da Beira, a primeira paragem foi, Trancoso, terra da sardinha doce. Facilmente se verifica que tem sofrido algum tipo de intervenção a preservação do edificado e o tratamento do seu centro é evidente, embora existam ainda alguns casos que chocam com o resto, o próprio castelo podia estar muito melhor. 
A paragem seguinte foi em Marialva, pena o castelo estar fechado e ainda por cima no horário em que a entrada era gratuita, (deve ser por coincidir com o horário de almoço). A envolvente ao castelo está muito bem tratada, mais é um exemplo de como é possível conciliar diferentes tipos de materiais na reconstrução, mesmo nas ditas “sizadas”. O centro do aglomerado mais próximo pode ser valorizado dando continuidade a este trabalho, devem é travar alguns dos edifícios que entram em ruptura total com o edificado mais antigo. Fica aqui a lembrança de que devem cumprir os horários afixados.
Ainda sem almoçar e já com algumas reclamações seguiu-se caminho rumo a Numão, Foz-Côa, caminho que se prolongou durante quilómetros porque a indicação do desvio para Numão estava coberta por vegetação, dado pelo erro e com o estômago a reclamar, chegamos ao castelo de Numão, tendo passado pelo desertificado centro, de salientar que eram já três da tarde, (tinha razão quem reclamava por almoço), estavam 30ºC. Após paragem técnica seguimos até ao centro de Foz-Côa, na tentativa de encontrar algo para almoçar.
Faço aqui uma ressalva, mas este foi o concelho que mais me desapontou, sem querer ferir susceptibilidades, mas se quer ser um concelho turístico, têm muito para aprender. Com conhecimento prévio de que as visitas às gravuras estavam lotadas, tentou-se de forma vã ver se existiam desistências, mas nada.
Rumo ao pocinho, para ver a barragem e aquilo que parece ter sido um ponto importante de movimento para a região, toda a envolvente ao caminho-de-ferro e à estação é quase um sítio fantasma.
O melhor do dia estava para vir, depois de passar por Pinhel e já rumo a Figueira de Castelo Rodrigo, onde para além de um excelente jantar e companhia amiga, estava um dos sítios que mais me fascinou durante estes três dias, Castelo Rodrigo, não só pela localização mas pelo excelente trabalho que tem sido feito na recuperação de todo um património construído. A forma como conciliou a intervenção com o comércio, a recuperação das fachadas e dos interiores, o tratamento dos espaços públicos, a amabilidade das pessoas. Pena que ainda nem todos os proprietários tenham aderido ao programa de recuperação, mas pelo que já está feito vale a pena, e assim se vê como se pode ter qualidade de vida sem ser nos grandes centros urbanos.
No segundo dia rumamos Ciudad Rodrigo, confesso que apesar do bom tratamento urbanístico, dentro das muralhas, e todo um conjunto de conceitos teóricos de desenho urbano que se podem lá encontrar, ficou aquém das expectativas.
Por seu lado já Salamanca superou de longe o que eu imaginava, prova que o investimento feito para a capital europeia da cultura valeu a pena. A estruturação a cidade, sendo possível conciliar o tráfego de atravessamento com o local, o tráfego automóvel com o pedonal. São visíveis os eixos de ligação entre os diferentes monumentos, a vivacidade da Plaza Mayor é a mostra de como uma cidade pode ser moderna e cosmopolita, respeitando um conjunto de regras básicas de como construir cidades.
Já em Pinhel, visitamos a parte histórica do concelho, fiquei com pena, pois tem algum interesse mas o grau de compromisso é já muito grande, a cidade entrou em ruptura com a sua génese, embora seja ainda possível fazer alguma coisa.
Almeida, perto da uma da manhã, gostei imenso do que vi e tinha de voltar durante o dia. A forma do castelo, a malha orgânica existente, o valor do conjunto do edificado, o trabalho feito. Sem dúvida que de dia tem outro encanto, espero que continue o trabalho de preservação e recuperação deste centro.
Rumo já a Sabugal, apreciando o valor paisagístico e a sua diversidade em tão poucos quilómetros, no centro vimos que o castelo foi alvo de uma grande intervenção, pena foi que estava fechado a visitas, uma vez que ainda não foi totalmente acabada a intervenção. Mas felizmente alguém que andava por lá em visita e também queria visitar o castelo, tinha o número do Sr. presidente da câmara e arranjou maneira de visitar o castelo. Lá se abriu um excepcional favor, a todos os demais que queriam ver o castelo e assim foi possível ver uma excelente
recuperação de um monumento, que vale a pena visitar. A envolvente ao castelo tem já exemplos muito interessantes de reabilitação de edifícios e tratamento dos espaços públicos, mas o que mais me fascinou nesta viagem a par de Castelo Rodrigo, foi Sortelha, um expoente de recuperação de aldeias e edificado de tratamento de espaços públicos, pena que a envolvente tenha já alguma promiscuidade, mas está ainda a tempo de ser parada em benefício de algo maior.
Em Belmonte, tivemos tempo de ver o castelo e a judiaria, rumando depois a casa pelo penoso percurso das obras do IP5.
Depois de ter feito este percurso, e apesar de nem tudo serem rosas, penso que se deve felicitar todos os responsáveis por estes tipos de intervenção, não só os técnicos mas também os políticos, pois sei que em alguns casos nem sempre é fácil levar a bom porto estas intervenções por dificuldades várias, mas são essas adversidades que no fim sabem melhor quando se vê o trabalho reconhecido. Deixo desta forma o reconhecimento do bom trabalho que vi e espero que sirva para que outros aprendam com a experiência de quem fez bem e começa a ver resultados. E acima de tudo que na maioria dos casos é possível conciliar as géneses dos locais com as intervenções mais actuais sem que estas entrem em choque ou ruptura.
Dacostt